20 de Feb de 2026 • 10 min de leitura
Avanço Brasileiro na Reparação da Medula Espinhal Devolve Mobilidade a Pacientes Tetraplégicos
No Brasil, um avanço científico de grande relevância na área de lesões medulares tem chamado a atenção internacional após seis pacientes tetraplégicos recuperarem a capacidade de andar por meio de um tratamento experimental desenvolvido pela neurocientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio.
Professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular no Instituto de Ciências Biomédicas, a pesquisadora dedica quase três décadas ao estudo do potencial regenerativo do sistema nervoso central. Seu trabalho busca enfrentar um dos maiores desafios da medicina contemporânea: a reversão de danos medulares historicamente considerados irreversíveis.
Uma nova perspectiva sobre a paralisia permanente
Lesões na medula espinhal sempre foram associadas a sequelas definitivas, sobretudo devido à limitada capacidade de regeneração dos neurônios no sistema nervoso central. Quando as conexões neurais são interrompidas por trauma, os mecanismos naturais de reparo do organismo geralmente não conseguem restaurar as funções motoras e sensoriais perdidas.
A pesquisa conduzida no Brasil pela equipe da professora Sampaio propõe uma mudança nesse paradigma. O grupo desenvolveu a chamada polilaminina, um composto proteico experimental concebido para estimular a reconexão neuronal na região lesionada da medula espinhal.
A molécula é obtida a partir de proteínas extraídas da placenta humana e aplicada diretamente no local da lesão. A estratégia baseia-se em evidências da neurobiologia do desenvolvimento, que demonstram que proteínas da família das lamininas desempenham papel fundamental na orientação do crescimento e na formação das conexões neuronais durante o desenvolvimento embrionário.
Ao replicar esse ambiente bioquímico favorável, a polilaminina busca reativar mecanismos regenerativos mesmo em tecidos adultos previamente considerados incapazes de recuperação significativa.
Resultados clínicos que repercutiram internacionalmente
De acordo com os dados divulgados pela equipe brasileira, seis pacientes com lesões medulares graves — incluindo quadros de tetraplegia — apresentaram recuperação relevante da mobilidade e da sensibilidade após a intervenção experimental. Alguns dos participantes, anteriormente diagnosticados com paralisia permanente, voltaram a ficar em pé e a caminhar.
Embora o tratamento ainda esteja em fase experimental e dependa de avaliações regulatórias antes de qualquer aplicação em larga escala no Brasil, os resultados preliminares foram recebidos com interesse pela comunidade científica internacional.
A literatura científica há décadas aponta a importância dos componentes da matriz extracelular na regeneração neural. O diferencial da pesquisa conduzida na UFRJ está na aplicação clínica direta desses princípios biológicos, conectando pesquisa básica e potencial terapêutico.
Próximos passos e desafios regulatórios
Apesar dos resultados promissores, a terapia com polilaminina ainda não possui autorização para uso clínico amplo. Serão necessários estudos adicionais, acompanhamento de longo prazo e validação por meio de ensaios clínicos controlados para confirmar a segurança e a eficácia do método.
Ainda assim, o avanço posiciona o Brasil no centro das discussões globais sobre regeneração do sistema nervoso central e reforça o papel estratégico das instituições públicas de pesquisa na inovação em saúde.
Um marco para a ciência médica brasileira
A trajetória da professora Tatiana Coelho de Sampaio evidencia a importância da pesquisa de longo prazo e do investimento contínuo em ciência. O trabalho desenvolvido na Universidade Federal do Rio de Janeiro representa um marco para a medicina regenerativa no Brasil.
Se confirmados em estudos posteriores, os resultados poderão redefinir as perspectivas terapêuticas para pessoas que vivem com paralisia. Para milhões de pacientes no Brasil e no mundo, o que antes parecia biologicamente impossível começa a ganhar base científica concreta.