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08 de Mar de 2026 • 10 min de leitura

Idade Aumenta o Risco de Lesões Pré-Cancerígenas do Colo do Útero em Mulheres que Vivem com HIV, Aponta Revisão Internacional

Idade Aumenta o Risco de Lesões Pré-Cancerígenas do Colo do Útero em Mulheres que Vivem com HIV, Aponta Revisão Internacional

Uma ampla revisão sistemática publicada na European Medical Journal identificou um aumento progressivo do risco de lesões pré-cancerígenas do colo do útero conforme a idade em mulheres que vivem com HIV. O estudo reuniu dados de sete países — Burkina Faso, Camarões, Índia, Quênia, África do Sul, Tailândia e Estados Unidos — e reforça a necessidade de estratégias de prevenção adaptadas a essa população.

Crescimento do Risco com o Avanço da Idade

A análise incluiu mais de 72 mil mulheres, sendo mais de 12.500 vivendo com HIV. Por meio de modelos estatísticos de efeitos aleatórios, os pesquisadores estimaram a probabilidade de ocorrência de neoplasia intraepitelial cervical (NIC), especialmente os graus 2 e 3, considerados clinicamente relevantes por representarem estágios pré-cancerígenos mais avançados.

Os resultados indicam que, embora adolescentes entre 15 e 19 anos apresentem menor probabilidade de desenvolver lesões de alto grau, o risco aumenta significativamente a partir dos 20 anos e continua crescendo ao longo da vida adulta. As maiores estimativas de prevalência foram observadas entre mulheres de 45 a 49 anos que vivem com HIV.

Já o câncer cervical invasivo mostrou-se incomum antes dos 30 anos, evidenciando a importância do rastreamento precoce para interromper a progressão da doença.

Relação Entre HIV, HPV e Câncer do Colo do Útero

Mulheres vivendo com HIV apresentam maior vulnerabilidade à infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV), principal agente etiológico do câncer do colo do útero. A imunossupressão associada ao HIV pode dificultar a eliminação do vírus pelo organismo, aumentando a probabilidade de evolução para alterações celulares significativas.

Estudos publicados em periódicos científicos como The Lancet HIV e o British Medical Journal demonstram que mulheres com HIV têm maior risco de recorrência de infecção por HPV e de desenvolvimento de lesões cervicais quando comparadas à população sem HIV. Embora a terapia antirretroviral tenha ampliado significativamente a expectativa de vida, a prevenção oncológica permanece um componente essencial do cuidado integral.

Impacto nas Recomendações Internacionais

As evidências da revisão contribuíram para orientações atualizadas da Organização Mundial da Saúde. Atualmente, recomenda-se que mulheres vivendo com HIV iniciem o rastreamento do câncer do colo do útero aos 25 anos, com repetição a cada três a cinco anos, de acordo com os protocolos nacionais e a disponibilidade de recursos.

Em 2020, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, lançou uma estratégia global com o objetivo de eliminar o câncer cervical como problema de saúde pública. Entre as metas estabelecidas para 2030 estão: vacinar 90% das meninas contra o HPV até os 15 anos, rastrear 70% das mulheres até os 35 anos e novamente aos 45, e garantir que 90% das mulheres diagnosticadas com doença cervical recebam tratamento adequado.

Desafios para os Sistemas de Saúde

Nos países incluídos na análise — especialmente na África Subsaariana, onde a prevalência de HIV permanece elevada — integrar o rastreamento do câncer cervical aos serviços de atendimento ao HIV é considerado fundamental. A ampliação do acesso à vacinação contra o HPV, a utilização de testes de alta sensibilidade e a garantia de acompanhamento clínico são medidas estratégicas para reduzir a mortalidade evitável.

As conclusões reforçam que a prevenção do câncer do colo do útero deve estar diretamente alinhada às políticas de cuidado contínuo às pessoas que vivem com HIV. Com o aumento da longevidade proporcionado pelo tratamento antirretroviral, políticas de rastreamento adaptadas à faixa etária tornam-se determinantes para proteger a saúde feminina a longo prazo.