02 de Mar de 2026 • 10 min de leitura
Organização Mundial da Saúde relaciona mortalidade materna a conflitos e fragilidade dos sistemas de saúde
Uma nova análise técnica conduzida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em parceria com o Human Reproduction Programme (HRP), identificou uma forte associação entre mortalidade materna e contextos de conflito armado ou fragilidade institucional. O levantamento aponta que quase dois terços das mortes maternas no mundo ocorrem em países marcados por guerras ou instabilidade estrutural, embora essas nações concentrem apenas uma parcela menor dos nascimentos globais.
Somente em 2023, cerca de 160 mil mulheres morreram por causas maternas evitáveis em países considerados frágeis ou afetados por conflitos. A análise indica que o risco de morte materna por gestação é aproximadamente cinco vezes maior em países em conflito quando comparado a países relativamente estáveis.
Diferenças expressivas nas taxas de mortalidade materna
O estudo correlaciona as estimativas mais recentes da Razão de Mortalidade Materna (RMM) com a classificação dos países quanto à presença de conflito ou fragilidade institucional. Nos países afetados por conflitos, a RMM estimada foi de 504 mortes para cada 100 mil nascidos vivos. Em países classificados como social e institucionalmente frágeis, a taxa foi de 368 por 100 mil nascidos vivos. Já nos países fora dessas categorias, a razão foi significativamente menor: 99 mortes por 100 mil nascidos vivos.
Esses dados aprofundam conclusões apresentadas anteriormente nas estimativas globais de mortalidade materna referentes ao período de 2000 a 2023, que já apontavam desaceleração no progresso da redução dessas mortes. Publicações científicas, como as divulgadas na revista The Lancet Global Health, reforçam que interrupções nos sistemas de saúde, deslocamentos populacionais e destruição de infraestrutura comprometem o acesso a parto assistido por profissionais qualificados e a cuidados obstétricos de emergência.
Fragilidade estrutural e barreiras no acesso ao cuidado
A análise confirma que contextos de crise dificultam a oferta contínua de serviços maternos essenciais. Danos a unidades de saúde, escassez de profissionais, falhas no abastecimento de insumos e insegurança nas comunidades reduzem o acesso ao pré-natal, ao parto seguro e ao acompanhamento pós-parto.
O risco é ainda mais elevado entre adolescentes. Em 2023, uma jovem de 15 anos vivendo em país afetado por conflito apresentava risco ao longo da vida de 1 em 51 de morrer por causas maternas. Em países classificados como frágeis, o risco era de 1 em 79, enquanto em nações mais estáveis esse índice era de 1 em 593. Fatores como idade, etnia, condição migratória e vulnerabilidade socioeconômica intensificam essas desigualdades.
Evidências científicas indicam que a maioria das mortes maternas está associada a complicações evitáveis, como hemorragias, infecções e distúrbios hipertensivos, que podem ser tratadas quando há acesso oportuno a cuidados adequados.
Experiências nacionais mostram caminhos possíveis
O relatório apresenta exemplos de países que adotaram estratégias para proteger a saúde materna mesmo em cenários adversos.
Na Colômbia, o fortalecimento da atuação de parteiras tradicionais ampliou a confiança comunitária e garantiu continuidade do atendimento em regiões remotas ou afetadas por insegurança. Na Etiópia, equipes móveis de saúde e a recuperação de unidades danificadas ajudaram a restabelecer serviços essenciais. No Haiti, a oferta de cesarianas gratuitas ou de baixo custo, aliada à garantia de fornecimento estável de energia elétrica, ampliou o acesso ao parto seguro para mulheres deslocadas.
Experiências em Myanmar, Papua-Nova Guiné e Ucrânia também demonstram que, mesmo diante de crises complexas, é possível proteger serviços obstétricos por meio de reorganização de fluxos assistenciais, fortalecimento da coordenação local e garantia de práticas de parto seguras e respeitosas.
Uso estratégico de dados para orientar políticas
Ao integrar dados de mortalidade materna com indicadores de fragilidade, a OMS e o HRP passam a contar com ferramenta mais precisa para direcionar investimentos e ações prioritárias. O relatório enfatiza a necessidade de fortalecer a atenção primária à saúde, ampliar a coleta de dados em áreas de difícil acesso e desenvolver sistemas de saúde resilientes, capazes de responder e se adaptar a choques externos.
A evidência acumulada na literatura científica internacional demonstra que a maioria das mortes maternas é evitável com acesso a cuidados oportunos e de qualidade. Entretanto, em países marcados por conflitos e instabilidade, a fragilidade estrutural impede a consolidação desses serviços.
O estudo reforça que reduzir a mortalidade materna global depende, de forma decisiva, do fortalecimento dos sistemas de saúde em contextos de crise. Investir em resiliência, continuidade do cuidado e equidade no acesso é fundamental para proteger mulheres e meninas, mesmo nos ambientes mais desafiadores do mundo.