01 de Mar de 2026 • 10 min de leitura
Organização Mundial da Saúde relata aumento de ataques aos serviços de saúde na Ucrânia
Os serviços de saúde da Ucrânia enfrentaram uma escalada significativa de ataques ao longo de 2025, com aumento aproximado de 20% em comparação com o ano anterior, segundo dados compilados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ao entrar no quinto ano de guerra em larga escala, a Ucrânia registra impactos cada vez mais severos sobre seu sistema de saúde e sobre a condição clínica da população.
Desde 24 de fevereiro de 2022, a OMS documentou pelo menos 2.881 incidentes que afetaram unidades de saúde, profissionais, ambulâncias e depósitos de medicamentos na Ucrânia. Esses episódios, monitorados por meio do sistema de vigilância da OMS para ataques à saúde, configuram violações do direito internacional humanitário e resultaram em centenas de mortes e feridos entre pacientes e trabalhadores da área.
Pressão crescente sobre a infraestrutura de saúde na Ucrânia
Em 2025, o número de ataques atingiu seu ponto mais crítico no terceiro trimestre, quando 184 ocorrências foram registradas, provocando mortes e ferimentos entre pacientes e profissionais. Ao longo dos quatro anos de conflito, mais de 200 pessoas perderam a vida e centenas ficaram feridas em incidentes relacionados a instalações de saúde na Ucrânia.
Além dos ataques diretos a hospitais e clínicas, a destruição de infraestrutura civil — especialmente instalações energéticas — agravou a situação. Danos recorrentes a usinas termoelétricas e sistemas de aquecimento comprometeram o fornecimento de eletricidade, água e aquecimento, dificultando a manutenção de ambientes clínicos seguros durante o inverno. Em janeiro de 2026, um ataque em Kiev deixou milhares de edifícios sem aquecimento em meio a temperaturas abaixo de zero, forçando deslocamentos internos na capital da Ucrânia.
Estudos publicados em periódicos como The Lancet indicam que interrupções prolongadas em serviços básicos, como energia e água, elevam riscos de complicações clínicas, aumentam a incidência de doenças infecciosas e prejudicam a recuperação de pacientes em contextos de guerra.
Indicadores de saúde em deterioração
Avaliação conduzida pela OMS em dezembro de 2025 revelou disparidades significativas na autopercepção de saúde na Ucrânia. Nas áreas próximas à linha de frente, 59% dos entrevistados classificaram sua saúde como ruim ou muito ruim, enquanto em regiões mais distantes dos combates esse índice foi menor.
A saúde mental apresenta sinais particularmente preocupantes. Segundo dados da OMS na Ucrânia, 72% das pessoas relataram sintomas de ansiedade ou depressão no último ano, mas apenas uma em cada cinco buscou apoio especializado. Evidências científicas publicadas em revistas como The BMJ demonstram que a exposição prolongada a conflitos armados está associada ao aumento de transtornos mentais, especialmente entre populações deslocadas e jovens.
Doenças não transmissíveis também têm avançado no país. Estima-se que cerca de um quarto da população ucraniana apresente níveis perigosamente elevados de pressão arterial. Paralelamente, o acesso a medicamentos essenciais permanece limitado: quatro em cada cinco pessoas relatam dificuldades para adquirir remédios, sendo o alto custo o principal obstáculo.
Lacunas na reabilitação e no cuidado de longo prazo
O aumento de lesões traumáticas relacionadas à guerra elevou a demanda por cirurgias, transfusões de sangue, controle de infecções e reabilitação. No entanto, os serviços de reabilitação continuam restritos na Ucrânia. Apenas uma pequena parcela dos hospitais oferece reabilitação para pacientes internados, e o acesso a tecnologias assistivas, como próteses, está disponível em número reduzido de unidades.
Os ataques a depósitos de insumos médicos também comprometeram as cadeias logísticas. Em 2025, os registros de ataques a armazéns de suprimentos triplicaram em comparação com 2024, dificultando a distribuição de medicamentos e equipamentos em todo o território ucraniano.
A resposta operacional da OMS na Ucrânia
Diante da deterioração do cenário, a OMS apoiou aproximadamente 1,9 milhão de pessoas na Ucrânia em 2025 por meio de fornecimento de insumos, encaminhamentos, capacitação profissional e apoio direto a serviços de saúde. A assistência emergencial alcançou cerca de 954 unidades de saúde, além de viabilizar mais de 1.200 evacuações médicas.
Para reduzir os impactos das falhas energéticas, a OMS distribuiu 284 geradores a unidades de saúde em 23 regiões da Ucrânia, contribuindo para a manutenção de serviços essenciais durante o inverno. As ações também incluíram reconstrução de instalações danificadas, instalação de clínicas modulares e treinamento de mais de 2.500 profissionais para fortalecer a resiliência do sistema.
Para 2026, a OMS lançou um apelo internacional solicitando US$ 42 milhões para sustentar suas operações na Ucrânia e garantir acesso à saúde a cerca de 700 mil pessoas.
Desafios contínuos para o sistema de saúde ucraniano
A continuidade do conflito na Ucrânia evidencia como ataques a serviços de saúde têm efeitos diretos e indiretos duradouros sobre a saúde pública. Além das vítimas imediatas, há impactos prolongados sobre o tratamento de doenças crônicas, a recuperação de pacientes cirúrgicos e a estabilidade emocional da população.
Especialistas em saúde global reforçam que a proteção de unidades e profissionais de saúde em contextos de guerra é obrigação prevista no direito internacional e elemento essencial para evitar colapso sanitário. Na Ucrânia, preservar o acesso aos cuidados permanece crucial para conter o agravamento da crise e preparar o país para uma eventual reconstrução sustentável do seu sistema de saúde.